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terça-feira, 5 de abril de 2011

AUGUSTO DE LIMA

Nasceu em Congonhas de Sabará (atual Nova Lima), em Minas Gerais. Foi presidente do Estado de Minas, em 1891. Além de político foi jornalista, poeta, magistrado, jurista e professor. Em 1902, concorreu pela primeira vez, à vaga de Francisco de Castro, na Academia Brasileira de Letras. Em 1978, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo, obteve o título de bacharel em 1882, tendo, durante o curso, exercido o jornalismo, no qual se mostrou propagandista das idéias da República e da Abolição. Foi nomeado promotor do Termo de Leopoldina, e, em 1885, era juiz municipal. Em 1889, foi nomeado promotor de direito de Conceição da Serra, no Espírito Santo, onde permaneceu até 1890, quando deveria seguir, no mesmo posto, para Dores de Boa Esperança, em Minas, mas logo foi escolhido para chefe de polícia do Estado, em Ouro Preto.



§        Bibliografia:

- 1887: Contemporâneas;
- 1892: Símbolos;
- 1909: Poesias;
- 1930: São Francisco de Assis.

Serenata

Plenilúnio de maio em montanhas de Minas!
canta, ao longe, uma flauta e o violoncelo chora.
Perfuma-se o luar nas flores das campinas.
sutiliza-se o aroma em languidez sonora.

Ao doce encantamento azul das cavatinas,
nessas noites de luz mais belas do que a aurora,
as errantes visões das almas peregrinas
vão voando a cantar pela amplidão afora...

E chora o violoncelo e a flauta, ao longe, canta.
Das montanhas, cantando, a névoa se levanta,
banhada de luar, de sonhos, de harmonia.

Com profano rumor, porém, desponta o dia,
e na última porção de névoa transparente
a flauta e o violoncelo expiram lentamente.[1]
ESTÉTICA

Poeta inconfundível e dos mais inspirados de nossas letras, Augusto dos Anjos embriaga e perturba. É quem num caldeamento heteróclito, nele desembocam alguns dos principais veios filosóficos, científicos e estéticos que percorrem a literatura européia, e a brasileira, no transcurso do século XIX. À primeira, foi buscar o exemplo de um Baudelaire e sua poesia da decomposição; de um Cesário Verde e sua poesia do cotidiano urbano e expressionista; de um Schopenhauer e sua filosofia da Dor e da Vontade; de um Hegel e sua filosofia dialética e idealista; dos naturalistas, como Darwin, Haeckel e outros, e sua teoria evolucionista. Dentre os nossos, recebeu o impacto da poesia científica, da parnasiana, e de Cruz e Sousa. Toda essa massa de informações, recebida pela mundividência de Augusto dos Anjos em razão de uma íntima afinidade eletiva, e assimilada às matrizes próprias do poeta, tem dificultado seu enquadramento histórico-estético. Parnasiano? Simbolista? Considerando que culto da forma seguido pelos parnasianos integrou o programa de arte preconizado pelo Simbolismo, pode-se dizer que seu lugar mais preciso é entre os partidários da última tendência. O emprego de palavras contundentes, tomadas de empréstimo às ciências, não deve confundir, porquanto o poeta, repudiando-lhes a univocidade originária, desenvolve insuspeitadas conotações no encontro com os demais vocábulos; dir-se-ia que lhes desvenda significados ocultos e profundos, e assim elabora uma obra lírica de elevado quilate. Poesia de um solipsista torturado, a escavar masoquistamente o mais secreto de seu ser biólogo e metafísico, expressa numa linguagem sincopada, agressiva e máscula, poesia madura e niilista, da melhor que tem produzido nossa literatura.


[1] Disponível em:  www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/minas_gerais/augusto_de_lima.html

EMILIANO PERNETA

Emiliano David Perneta nasceu no Sítio dos Pinhais, arredores de Curitiba (Paraná), a 3 de janeiro de 1866. Filho de um português cristão-novo, após os preparatórios na capital de seu Estado, vem para São Paulo em 1883 e matricula-se na Faculdade de Direito. Conhece anos de febre literária, de boêmia dourada e de atividade abolicionista. Estréia em 1888, com Músicas. Formado, segue para o Rio de Janeiro, onde permanece até 1892, cada vez mais integrado no movimento simbolista. Adoecendo, vai para Minas Gerais, e de lá para Curitiba, em 1895, onde se entrega à advocacia e ao jornalismo, e, mais tarde, ao magistério e ás funções de auditor de guerra. Em 1914, cercado de largo prestígio, revisita o Rio de Janeiro. Faleceu a 19 de janeiro de 1921, em Curitiba.

§        Versos:

- 1899: Carta à Condessa D’Eu;
- 1991: Ilusão;
            - 1934: Setembro (Poemas-Póstumos).
           
§        Prosa:

- 1889: O Inimigo;
- 1902: Floriano;
- 1903: Alegoria;
- 1905: Oração da Estátua do Marechal Floriano Peixoto;
- 1945: Prosas (1º Vol. Das Obras Completas).

§        Teatro:

- 1914: Pena de Talião;
- 1917: Vovozinha (Peça Infantil, ainda inédita);
- 1966: Papilio Innocentia (Poema-libreto calcado em Inocência, de Taunay).

Vencidos

Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland? … E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infetos!
E gloria à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!
Ilusão (1911)

ESTÉTICA

O afeiçoamento ao Parnasianismo parece resultar menos da sujeição servil ou condicionada ao padrão literário do momento, que de uma finidade radical entre as postulações doutrinárias e um temperamento em que se funde o meridional e o hebreu, numa síntese verdadeiramente escaldante. Prova-o, como já foi assinalado, a freqüência do soneto, e do soneto esculpido com o rigor de ourivesaria peculiar aos sectários daquele culto poético; e prova-o ainda o eruptivo sensualismo de fauno às soltas, a indicar uma visão estetizante e dionisíaca, de um artista nostálgico do esplendor helênico ou de sua metamorfose renascentista. Pouco a pouco, na razão direta da diminuição de suas forças instintivas, o poeta evolui do terreno para o transcendental. Entretanto, a uma análise mais circunstanciada, percebe-se que o drama original não se resolveu de todo: o poeta vislumbra o repouso cristão, mas tolhido, “até quase à loucura”. Equação binária oposta à fome de Infinito que agita vários poetas do tempo (Cruz e Sousa e Antero de Quental, entre outros), constitui a mola básica de que arranca o vôo amplo da poesia de Emiliano Perneta, para cuja grandeza, no perímetro simbolista, concorreu de modo palpitante seu invulgar talento artesanal. [1]


[1] MOISÉS, Massaud. A Literatura através dos textos. 24ª ed. CULTRIX. São Paulo, 2004.

GRAÇA ARANHA

José Pereira da Graça Aranha nasceu em São Luís do Maranhão, a 21 de junho de 1868. Formado em Direito no Recife (1886), é nomeado Promotor Público e mais tarde Juiz de Direito, no Estado natal, e Juiz Municipal, no Espírito Santo. Fundada a Academia Brasileira de Letras (1897), ocupa uma de suas cadeiras. Em 1902, publica Canaã, e em 1911 representa, em Paris, a peça Malazarte. Regressa ao Brasil em 1920, imbuído do espírito de vanguarda, e, recusando o passado acadêmico, engaja-se na revolução modernista. Ainda publica O Espírito Moderno (1925) e A Viagem Maravilhosa (1927), e falece no Rio de Janeiro, a 27 de fevereiro de 1931.

§        Além das obras referidas, escreveu:

- 1921: A Estética da Vida;
- 1923: Correspondência entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco;

Canaã

Publicado em 1902, este romance passa-se em Porto de Cachoeiro, no Espírito Santo. Dois imigrantes alemães, Milkau e Lentz, tratavam um longo debate a cerca da terra que elegeram para a segunda pátria: o primeiro, orientado por um relevante idealismo e senso de fraternidade; o segundo, racista e preconceituoso. Terminada a disputa ideológica, a ação desloca-se para a vida do pequeno povoado, suas festas, seus dramas, etc. Milkau enamora-se de Maria, empregada na casa de abastados compatriotas seus, e que havia sido seduzida pelo filho dos patrões. Expulsa de casa perambula pela colônia, até que vem dar à luz junto de um rio. Devorado pelos porcos o recém-nascido, a jovem é presa sob acusação de infanticídio. Milkau tira-a de lá e ambos fogem, numa escalada simbólica em busca da terra da Promissão. Ao epílogo (capítulo XII) pertencem as páginas seguintes: 
- Maria!
A desgraçada estremeceu; e com as mãos hirtas, estiradas, afastou de si o rosto que se inclinara sobre ela. Nas torturas do pesadelo, parecia-lhe que beiços roxos, sedentos e viscosos lhe buscavam os lábios...
- Maria, sou eu... repetiu Milkau. (...)
(...) - Vamos! Levanta-te... disse ele, baixo e com firmeza, sacudindo o morno carinho, recolhendo e enfeixando com energia as suas forças mais intensas.
Obedecendo, Maria ergueu-se; e pela mão de Milkau foi seguindo pela casa meio escura. No corredor, a claridade da noite, que entrava pela porta da rua, aberta como de costume, deixava ver o corpo de um soldado negro dormindo numa postura brutal, como uma figura tosca e arcaica. A prisioneira alarmada quis recuar; Milkau tomou-lhe as mãos com império e passou com ela serena e forte ao lado da sentinela, conduzindo-a para a noite e para a liberdade. (...)
(...) Deixaram a cidade, e agora sem receio de despertá-la, galgavam a montanha, lépidos e radiantes. A fria rigidez, criada pelo terror, se fora dos braços de Maria, que se prendiam aos de Milkau, trépidos e brandos. (...)
(...) – É a felicidade que te prometo. Ela é da Terra, e haveremos de achá-la... Quando vier a luz, encontraremos outros homens, outro mundo, e aí... É a felicidade... Vem, vem... (...)
(...) – Adiante... Adiante... Não pares... Eu vejo. Canaã! Canaã!
Mas o horizonte na planície se estendia pelo seio da noite e se confundia com os céus. Milkau não sabia para onde o impulso os levava: era o desconhecido que os atraía com a poderosa e magnética força da Ilusão. Começava a sentir a angustiada sensação de uma corrida no Infinito... (...)
(...) A noite enganadora recolhia-se, o mundo cansava de ser igual; Milkau festejou num frêmito de esperança a deliciosa transição... Enfim, Canaã ia revelar-se!... A nova luz sem mistério chegou, e esclareceu a várzea. Milkau viu que tudo era vazio, que tudo era deserto, que os novos homens ainda ali não tinham surgido. Com as suas mãos desesperançadas, tocou a Visão que o arrastara. Ao contato humano ela parou, e Maria volveu outra vez para Milkau a primitiva face moribunda, os mesmos olhos pisados, a mesma boca murcha, a mesma figura de mártir. (...)




ESTÉTICA

Obra anfíbia, Canaã pende entre romance e documentário, entre a prosa poética e a prosa doutrinal, entre o Naturalismo e o Simbolismo. Ainda em conformidade com o ideário simbolista, Canaã implica uma tese acerca da redenção do Homem oposta à defendida pelos realistas e naturalistas: “Todo o mal está na Força e só o Amor pode conduzir os homens...” Tese que encerra uma utópica e panteística visão do mundo, contrária à certeza objetiva e científica dos realistas, como se nota principalmente no parágrafo final, espécie de mensagem de esperança após os dois visionários terem descoberto o malogro de seu Eldorado. A linguagem procura acompanhar o fluxo e refluxo da ambiência lírica: apreendendo a vibração estética que cruza a Natureza e o casal de namorados, a dicção de Graça Aranha ganha um automatismo que, se nem sempre consegue repelir expressões menos felizes, no geral resulta positivamente.[1]


[1] MOISÉS, Massaud. A Literatura através dos textos. 24ª ed. CULTRIX. São Paulo, 2004.

JOAQUIM NABUCO


Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo (Recife, 1849 - Washington, 1910). Formou-se em Direito pela Escola do Recife, após ter cursado os três primeiros anos em São Paulo, e de ter se bacharelado em Letras no Colégio Pedro II. Logo após concluir o curso, ingressou no serviço diplomático. Teve ativa participação política em prol da abolição do sistema escravocrata, tendo sido eleito mais de uma vez deputado geral pela província de Pernambuco. Após deixar a vida política de lado, com a queda da monarquia, dedicou-se à literatura e à advocacia, em seu chamando “exílio voluntário”. Nessa época, foi criada a Academia Brasileira de Letras, fruto de suas relações com outros grandes escritores, como Machado de Assis e José Veríssimo, enquanto freqüentadores da redação da Revista Brasileira. Como jornalista, foi representante do Jornal do Commercio em Londres, sendo também colaborador daquele, por várias vezes. E antes mesmo de ingressar na diplomacia, defendeu os ideais monárquicos com publicações em A Reforma. Ocupando o cargo de embaixador, faleceu em Washington.

§        Bibliografia

- 1872: Camões e os Lusíadas
- 1874: L’Amour est Dieu
- 1883: O Abolicionismo
- 1885: Campanha abolicionista no Recife
- 1886: O erro do Imperador; Escravos
- 1890: Porque continuo a ser monarquista
- 1895: Balmaceda; O dever dos monarquistas
- 1896: A intervenção estrangeira durante a revolta
- 1899: Um estadista do Império
- 1900: Minha formação - Memórias
- 1901: Escritos e discursos literários
- 1906: Pensées detachées et souvenirs

"A nossa Constituição não é imagem dessas catedrais góticas edificadas a muito custo e que representam no meio da nossa civilização adiantada, no meio da atividade febril do nosso tempo, épocas de passividade e de inação. A nossa Constituição é, pelo contrário, de formação natural, é uma dessas formações como a do solo onde camadas sucessivas se depositam; onde a vida penetra por toda a parte, sujeita ao eterno movimento, e onde os erros que passam ficam sepultados sob as verdades que nascem." – Joaquim Nabuco, sobre a interpretação Constitucional.

Minha Formação

Autobiografia, publicou-se pela primeira vez, embora não integralmente, no Comércio de São Paulo, em 1895. Em volume, apareceu em 1900. Composta de 26 capítulos, a obra se inicia na fase “Colégio e Academia”, e finda em 1889. Entre as duas raias de tempo, desfilam os principais episódios de uma vida uniforme, em que o panorama local se compagina com os grandes centros internacionais de cultura, notadamente a França, a Inglaterra e os EUA, e em que “a crise poética” (cap. VIII) tem contrapeso na “eleição de deputado” (cap. XIX) e na Abolição (cap. XXI). O fragmento que se transcreve a seguir, pertence ao capítulo XX, intitulado “Massangana”, das páginas mais antológicas de quantas inspirou o talento de Joaquim Nabuco:

(...) Os primeiros oito anos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação, instintiva ou moral, definitiva... Passei esse período inicial, tão remoto, porém mais presente do que qualquer outro, em um engenho de Pernambuco, minha província natal. A terra era uma das mais vastas e pitorescas da zona do Cabo... Nunca se me retira da vista esse pano de fundo que representa os últimos longes de minha vida. (...)
(...) Emerson quisera que a educação da criança começasse cem anos antes dela nascer. A minha educação religiosa obedeceu certamente essa regra. Eu sinto a idéia de Deus no mais afastado de mim mesmo, como o sinal amante e querido de diversas gerações. Nessa parte a série não foi interrompida. Há espíritos que gostam de quebrar todas as suas cadeias, e de preferências as que outros tivessem criado para eles; eu, porém, seria incapaz de quebrar inteiramente a menor das correntes que alguma vez me prendeu, o que faz que suporte cativeiros contrários, e menos do que as outras uma que me tivesse sido deixada como herança. Foi na pequena capela de Massangana que fiquei unido à minha. (...)
(...) Meus moldes de idéias e de sentimentos datam quase todos dessa época, as grandes impressões da madureza não têm o condão de me fazer revive que tem o pequeno caderno de cinco a seis folhas apenas em que as primeiras hastes da alma aparecem tão frescas como se tivessem sido calcadas nesta mesma manhã... (...)
(...) Nessa escravidão da infância não posso pensar em um pesar involuntário... Tal qual o pressenti em torno de mim, ela conservava-se em minha recordação como um jogo suave, orgulho exterior do senhor, mas também orgulho íntimo do escravo, alguma coisa parecida com a dedicação do animal que nunca se altera, porque o fermento da desigualdade não pode penetrar nela. (...)

ESTÉTICA

Posto situar-se, com Minha Formação, na área do memorialismo, e gozar de uma personalidade inconfundível, Joaquim Nabuco apresenta a mesma característica fundamental de Euclides da Cunha: escritor acima de tudo, nele prevalece o domínio das matrizes da língua sobre o da fantasia criadora. Noutros termos, vale mais pelos méritos estilísticos, já que seu intuito básico, sendo a reconstituição “sincera” da própria existência, o afastava da imaginação, que é a mola propulsora do ficcionista, do dramaturgo e do poeta. Assim, a página que se leu, provavelmente conhecida do leitor pelo fato de se peça obrigatória em qualquer antologia do vernáculo, nos patenteia as excelências de um estilo caracterizado pela nitidez, pelo casticismo, por uma espécie de aticismo que o aproximara dos clássicos. Percebe-se, porém, que esse conservadorismo se põe em litígio com um substrato sensível à humanidade e à simplicidade, que remonta à infância, e com um pensamento filosófico elaborado na idade madura, com fundamento naquelas impressões da puerícia. No final, essa concepção empática e romântica do cativo assinala uma postura refinada, oriunda de um homem inserido nas classes elevadas, balançando-se entre um sentimento profundo, recuado à infância, que lhe determinou os estereótipos mentais de adulto, e uma doutrina igualitarista em parte promanada desse mesmo sentimento, e em parte do saber que a experiência dos homens e do mundo lhe foi permitindo assimilar no curso da vida consciente. Feitas as contas, pode-se concluir que o estilo depurado, bem como a matéria que reveste, decorrem de uma visão apolínea do Cosmos, pouco freqüente na Literatura Brasileira.[1]


[1] MOISÉS, Massaud. A Literatura através dos textos. 24ª ed. CULTRIX. São Paulo, 2004.

MÁRIO PEDERNEIRAS


Mário Veloso Paranhos Pederneiras nasceu no Rio de Janeiro, a 2 de novembro de 1868. Estudos secundários no Colégio Pedro II. Em São Paulo, cursa durante um ano a Faculdade de Direito. Regressando à cidade natal, emprega-se como securitário e, logo mais, taquígrafo do Senado. Ao mesmo tempo, inicia-se no jornalismo e na literatura. Em 1990, estréia com Agonia. Classifica-se em terceiro lugar, seguidamente a Olavo Bilac e Alberto de Oliveira, num concurso para escolher o “príncipe dos poetas brasileiros”, realizado em 1913. Faleceu a 8 de fevereiro de 1915.

§        Bibliografia

- 1901: Rondas Noturnas;
- 1906: Histórias do Meu Casal;
- 1912: Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida;
- 1921: Outono;
Inéditas permanecem duas peças de teatro (Dona Bernarda e Dr. Mendes Camacho, esta desaparecida) e um Caderno de Notas Literárias, correspondente ao ano de 1990.


Meu Casal

Fica distante da cidade e em frente
À remansosa paz de uma enseada,
Esta dos meus romântica morada,
Que olha de cheio para o Sol nascente.

Árvores dão-lhe a sombra, desejada
Pela calma feição de minha gente,
E ela toda se ajusta ao tom dolente
Das cantigas que o Mar lhe chora à entrada.

Lá dentro o teu olhar de claros brilhos,
Todo o meu bem e todo o meu empenho,
E a sonora alegria de meus filhos.

Outros que tenham com mais luxo o lar,
Que a mim me basta, Flor, o que aqui tenho:
Árvores, filhos, teu amor e o mar.

A Rua

Eu considero a Rua
O melhor livro de Filosofia...
Na sua Vida que palpita e atua,
Há todo um método de ensinamento,
Desde o que prega risos e alegria,
Ao que doutrina mágoa e sofrimento.

É nela que se iguala o rumo demarcado
Do homem feliz, sincero ou falso,
E do grave senhor solene e douto,
Ao indeciso rumo aventurado
Do monstro infeliz de pé descalço

E de sapato roto.[1]

ESTÉTICA

            À semelhança de não poucos dos contemporâneos, iniciou sua trajetória fascinado pelo brilho de Cruz e Sousa, onde tudo lembra o poeta catarinense, desde a aliteração, cara à mentalidade simbolista, até a abundância meio arbitrária de maiúsculas. Superando a influência constrangedora, Mário Pederneiras descobre a vertente que o distinguiria nos quadros de nosso Simbolismo: o cotidiano simples e burguês, apresentado por “Meu Casal”, nucleado sobre um fundo sentimental e ingênuo, de feição romântica. A predominância do verso livre e da dicção cronística à beira da prosa, embora faça crer na vitória da primeira alternativa, confere a Mário Pederneiras o papal de intermediário entre as linhas avançadas do Simbolismo e a revolução modernista de 1922. Desse modo, sua mediana cotação estética é compensada por sua importância histórica: a ele se deve a vulgarização do ritmo e do metro irregulares e dos temas colhidos no dia-a-dia banal, que se tornariam moda nos anos 20 e 30.[2]


[2] MOISÉS, Massaud. A Literatura através dos textos. 24ª ed. CULTRIX. São Paulo, 2004.

MONTEIRO LOBATO

PEDRO LUÍS DE SOUSA

Pedro Luís Pereira de Sousa (Araruana, 1839 – Bananal, 1884). Em 1860 terminava o curso de Direito na Universidade de São Paulo. Exerceu a advocacia, a política e o jornalismo. Foi por duas vezes deputado, ministro dos Negócios Estrangeiros, ministro interino da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, presidente da Bahia e conselheiro do Império.

§        Bibliografia:

- 1860: Terribilis;
- 1864: Os voluntários da morte;
- 1866: A sombra do Tiradentes e Nunes Machado;
- 1876: Prisca Fides.

TERRIBILIS DEA
(Impressões do combate de Riachuelo)
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
o cabelo revolto e a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... Nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
Quem era? De onde vinha aquela grande imagem
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu? do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espetro ressurgir?
Deixai que se levante a grande divindade!
Seu templo é a terra e o mar, seu culto a mortandade;
Enche-lhe o peito o sopro das paixões.
É uma mulher fantasma! Uma visão de Dante,
Dos campos da batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!
A deusa do sepulcro! A pálida rainha!
A morte é sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre coorte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.
Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espetro!
De raios coroou-se! Ao peso de seu cetro
A terra tem arfado em transes infernais.
Do mundo as gerações têm visto em toda a idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais!
No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! tem risos de amargura!
Muda sempre de céu, de rumo, de farol.
Aqui - pede ao direito a voz forte e serena,
Ali - ruge feroz, feroz como uma hiena,
Assassina nas trevas, mata à luz do sol!...
Levanta o gládio nu em nome da Verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da Liberdade,
E no punho viril derrete-se o guilhão!
Como é bela!... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça, e atira com cinismo
A virgem Liberdade nos braços da Opressão!
É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glórias e os cerca de esplendor:
E esses loucos - depois de feitos de gigantes -
A túnica lhe beijam ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés na febre desse amor.
Quando Átila, o monstro, - o tigre cavaleiro,
Espumando a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na face do selvagem,
Enterrando o aguilhão nos flancos do corcel.
Era ela que em Roma erguia-se funesta!
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu.
Vergava com seu braço o braço do destino...
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em douda bacanal depois desfaleceu.
Foi de Carlos o Grande a excelsa companheira:
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial, glórias e troféus...
Quando no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus...
Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, nos desertos, em busca do Infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Coran,
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente...
Teve medo afinal daquela febre ardente;
Lá no meio do mar prendeu esse Titan!
Ela estava também serena e triunfante
Ao pé de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor,
Em doudas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror...
Ela estava também - espetro pavoroso -
Do Amazonas a bordo, ao lado do Barroso,
De pólvora cercada, em pé sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!...
Salve da guerra, deusa, arcanjo da batalha,
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate os infernais clarões,
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos:
O céu é fogo e aço, o ar - pólvora e gritos -
E corre e ferve o sangue em quentes borbotões.
Salve, tu, que nos deste o sangue da vingança!
O gládio da justiça, o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!
....................................................................................
Quando ela apareceu no escuro do horizonte
O cabelo revolto, a palidez na fronte,
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... Nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!...
[1]


RAUL DE LEÔNI
Raul de Leôni Ramos nasceu em Petrópolis (Estado do Rio), a 30 de outubro de 1895. Após os cursos fundamentais, ingressa na Faculdade Livre de Direito Do Distrito Federal, em 1912, e no ano seguinte visita a Europa. No retorno, inicia colaboração na imprensa do Rio de Janeiro. Formado em 1916, dois anos mais tarde é nomeado para cargo diplomático em Cuba, mas não chega a assumi-lo. Idêntico destino conhece a nomeação para o Vaticano. Nesse mesmo ano (1919), elege-se a deputado. Em 1923, descobrindo-se tuberculoso, segue para Itaipava, onde falece a 21 de novembro de 1926.


§        Publicou:

- 1919: Ode a um Poeta Morto, dedicada a Olavo Bilac, falecido naquele ano;
- 1922: Luz Mediterrânea.
-1941: Poemas Inacabados.


II
Basta saberes que és feliz, e então
Já o serás na verdade muito menos:
Na árvore amarga da Meditação,
A sombra é triste e os frutos têm venenos.

Se  és feliz e o não sabes, tens na mão
O maior bem entre os mais bens terrenos
E chegaste à suprema aspiração,
Que deslumbra os filósofos serenos.

Felicidade... Sombra que só vejo,
Longe do Pensamento e do Desejo,
Surdinando harmonias e sorrindo,

Nessa tranqüilidade distraída,
Que as almas simples sentem pela Vida,
Sem mesmo perceber que estão sentindo...

Crepuscular
Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção com que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencidas de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...

ESTÉTICA

O primeiro problema colocado pela obra de Raul de Leôni diz respeito à sua filiação: parnasiana? Simbolista? Conquanto pareça simplista, pode-se asseverar que ela funciona como liame entre as duas tendências poéticas e o Modernismo. Na verdade, surgindo para as Letras quando as duas correntes finisseculares agonizavam, Raul de Leôni ficou a meio do caminho, preso ainda às seduções de ontem e já prenunciando a moda de amanhã. Como nenhum outro, Raul de Leôni criou a poesia que faltava em nosso Simbolismo, a poesia de reflexão, filosofante, evidente em todas as peças transcritas: por exemplo, em “II”, ou em “Crepuscular”, importante para assinalar a divergência radical entre o autor de Luz Mediterrânea e Eduardo de Guimaraens, pois o descritivo dos jardins de penumbra do poeta gaúcho cede lugar à meditação sofrida. Nesse filosofismo desalentado perpassa a sombra gélida de Schopenhauer, mas seu nome tutelar é Platão (“Platônico”), fazendo crer num espírito religioso que conjugasse a fé com um pensamento transcendentalista. Bem ponderadas as coisas, trata-se de componentes simbolistas, aos quais se associa a fluência do verso, que ultrapassa as bordas rígidas do soneto e cumpre-se com a espontaneidade de quem pensa em voz alta ou murmura confidências, a preludiar claramente à descontração modernista. [2]


[1]  Disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=839&sid=2

[2] MOISÉS, Massaud. A Literatura através dos textos. 24ª ed. CULTRIX. São Paulo, 2004.