A época do Realismo entre nós começa em 1881, com a publicação dO Mulato, de Aluísio de Azevedo. E descreve uma linha senóide cujo ponto mais alto se localiza na década seguinte, quando entra a mesclar-se com o Simbolismo. A partir de 1902, com o aparecimento de Canaã, de Graça Aranha, a renovação realista mergulha em franco declínio, até que em 1922 se instala o Modernismo, com a Semana de Arte Moderna,
Este Blog é a execução de um projeto de extenção da Universidade Federal do Acre -UFAC, Orientado pela Profa. Dra. Luciana Marino do Nascimento, junto a Bolsista Adriana Alves de Lima que visa montar um catálogo que se divide em períodos, estética e obra dos autores brasileiros que tiveram formação em Direito.
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quarta-feira, 27 de abril de 2011
REALISMO
AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO
Afonso Arinos de Melo Franco (Paracatu, 1868 - Barcelona, 1916). Formou-se em Direito na Universidade de São Paulo, no ano de 1889. Lecionou História do Brasil no Liceu Mineiro, e participou da fundação da Faculdade de Direito de Minas Gerais, onde lecionou Direito Criminal. Teve artigos publicados na Revista Brasileira e na Revista do Brasil. Em 1901 foi eleito para a cadeira 40 da Academia Brasileira de Letras.
§ Bibliografia:
- 1898: Pelo sertão; Os jagunços
- 1900: Notas do dia
- 1917: O contratador de Diamantes; A unidade da Pátria; Lendas e Tradições Brasileiras
- 1918: O mestre de campo
- 1921: Histórias e paisagens; Ouro, ouro. De Pelo Sertão, livro de contos que lhe deu notoriedade escolheu-se uma das narrativas mais bem conseguidas:
Pedro Barqueiro
(...) “Eis senão quando entra o patrão, com aqueles modos decididos, e, voltando-se para um moço que o acompanhava, disse: “Para o Pedro Barqueiro bastam estes meninos!”– apontando-me e ao Pascoal com o indicador. – “Não preciso bulir nos meus peitos largos. O Flor e o Pascoal dão-me conta do crioulo aqui, amarrado a sedenho”.
“Para mentir, patrãozinho? o coração me pulou cá dentro, e eu disse comigo – estou na unha! O Pascoal me olhou com o rabo dos olhos. Parece que o patrão nos queria experimentar. Éramos os mais novos dos camaradas, e nunca tínhamos servido senão no campo, juntando a tropa espalhada, pegando algum burro sumido. Eu tinha ouvido falar sempre no Pedro Barqueiro, que um dia aparecera na cidade sem se saber quem era, nem donde vinha. Cheguei uma vez a conhecê-lo e falamo-nos. Que boa peça, patrãozinho! Crioulo retinto, alto, troncudo, pouco falante e desempenado. Cada tronco de braço que nem um pedaço de aroeira”. (...)
(...) “Esse negro metia medo de se ver, mas era bonito. Olhava a gente assim com ar de soberbo, de cima para baixo. Parecia ter certeza de que, em chegando a encostar a mão num cabra, o cabra era defunto. Ninguém bulia com ele, mas ele não mexia com os outros. Vivia seu quieto, em seu canto. Um dia, pegaram a dizer que ele era negro fugitivo, escravo de um homem lá das bandas do Carinhanha. Chegou aos ouvidos do patrão esse boato. Para que chegou, meu Deus! O patrão não gostava de ver negro, nem mulato de proa. Queria que lhe tirassem o chapéu e lhe tomassem a bênção. (...)
ESTÉTICA
É sabido que, durante a hegemonia do Romantismo, a temática regionalista, sendo produto de gabinete, não passou da fase embrionária. Tentaríamos de aguardar a eclosão do Realismo para que amadurecesse, inicialmente nos contos de Valdomiro Silveira, esparsos em jornal e tão-somente reunidos em volume anos depois, e no livro Pelo Sertão, de Afonso Arinos, que assim se tornou o introdutor dessa corrente em nossa literatura. “Pedro Barqueiro”, narrativa escolhida para representar o ficcionista mineiro, integra a referida obra. Conto de personagem focaliza um tipo humano inspirado no regime escravagista reinante no século XIX. A despeito de evidenciar um esforço de superação do idealismo abolicionista e utópico que alimentava a última geração romântica, Afonso Arinos, navegando nas mesmas águas do Aluísio Azevedo dO Mulato e da Bertoleza dO Cortiço, edifica um homem ambíguo na pessoa do herói. Sem definir-se como falha, tal circunstância assinala uma visão do problema da escravidão que busca detectar o para-além das aparências.
Por outro lado, embora o conto gire em torno de um escravo foragido, altamente dotado de força física e moral, não se lhe percebe maior incidência de componentes românticos no caráter: o escritor procurou retratá-lo com objetividade, como se protagonizasse um “caso” verdadeiro, incluindo aquele não sei quê de irreal ou insólito que lhe aureola a cabeça. Desse ângulo, o possível libelo contra a escravidão, que estaria implícito no conto, ganha nova coloração, pois se trata de mostrar que Pedro reunia qualidades superiores às dos sues inimigos. Em decorrência, praticava-se dupla injustiça: contra ele, merecedor de liberdade porque o cativeiro é sempre iníquo, e contra suas virtudes excepcionais. O estilo, que surpreende com relativa autenticidade o falar caboclo, seque de perto o ritmo de um flagrante social em que se reflete o drama de um homem de fibra acossado pela lei e a incompreensão dos semelhantes. [1]
COELHO NETO
§ Romances:
- 1893: A Capital Federal
- 1895: Miragem
- 1898: A Conquista
- 1898: O Morto
- 1901: A Esfinge
- 1906: Turbilhão
- 1914: Rei Negro
- 1928: Fogo-Fátuo
§ Contos:
- 1896: Sertão
- 1905: Água de Juventa
- 1908: O Jardim das Oliveiras
- 1913: Banzo
- 1928: A Cidade Maravilhosa
§ Crônicas:
- 1889: O Meio
- 1894: Bilhetes Postais
- 1898: Lanterna Mágica
- 1899: Por Montes e Vales
§ Teatro:
- 1911: Vol. I
- 1907: Vol II e Vol III
- 1908: Vol IV
- 1918: Vol V
- 1926: Vol VI
- 1924: Memórias, Mano
- 1927: Canteiro de Saudades
- 1905: Ensaio e Didática, Compêndio de Literatura Brasileira
- 1909: Conferências Literárias
De Sertão, que reúne do melhor que Coelho Neto produziu em matérias de conto, escolheu-se e seguinte peça:
Firmo, o Vaqueiro
(...) Firmo era meu companheiro quando eu ia passar as férias na roça. O que ele sabia de histórias, e como as contava fazendo a voz enternecida e meiga para imitar as princesas que imploravam ou arremetendo com vozeirão terrível para que eu tivesse a impressão exata do bradar horrível dos gigantes antropófagos. E não só história dos livros, outras sabia que eu jamais em letras vira: a que descrevia a vara branca seduzindo o remador do Itapicuru e o conto do sucupira, com que no bom tempo faziam cessar a minha impertinência. Algumas eram inventadas por ele, diziam; outras o velho Firmo, vaqueano e andejo, aprendera por esses sertões de Deus por onde caminhara. (...)
(...) Velho, embora, “ninguém lhe chegava ao pé sem muito jeito”, como ele próprio dizia sorrindo som os seus dentes limados, agudos como pontas de frechas. Apesar de alquebrado e enfermo andava com arrogância e notava-se-lhe na voz, áspera e forte, o hábito de comando.
Em tempos de festa, quando vinham para a mesma eira moças do lugar e moças de mais longe, Firmo saltava na roda, sapateando, rasgando na viola a tirana dos campeiros, e quem ousava pegar no verso do caboclo?! As tabaroas morenas sorriam com os olhos fascinados e unidas desfaziam-se das flores para que o cantador as fosse pisando no sapateado… por isso o Firmo andava sempre de ponta com os companheiros e, mais uma vez, o descante acabou varrido à faca; mas quem ficasse do lado do caboclo podia estar descansado – nunca fugiu de arreliam fosse com um, fosse com dez ou mais.
Mãezinha, a velha mucama de casa, quando o via passar no caminho, curvado pitando o seu cachimbo de taquara, dizia maliciosa:
– Isso, ahn! isso, foi o diabo!
Firmo “vivia encostado no tempo de dantes”, a saudade era o seu conforto. “Hoje em dia qu’a gente vê? má língua e moleza só”, dizia e citava os valentes de antanho e mostrava as velhas gabando-lhes a beleza que a idade fanara: “Sarapião, homem que nem o diabo!… Ana Rosa, essa curumba… foi mulata de dengue, era um motim aqui em cima por causa dela. Filomena, com essa cara de peixe moqueado, teve o seu luxo e foi gente… Eu também pisei duro, ora!” (...)
(...) Firmo ficava enlevado acompanhando os movimentos da manada, inclinando-se para um lado, para o outro, aspirando sôfrego. De repente batia as palmas e juntava, logo em seguida, as mãos na boca à guisa de porta-voz, bradando:
– Eh! eh! eh cou! ruma! ruma! Eh! lou!…
E ficava longo tempo excitado, a olhar. Não perdia uma só das peripécias e, se um touro espirrava, correndo aos galões pela campina, o velho entrava a bramar do outeiro, tão alto, tão alto, que as raparigas, que andavam na eira recolhendo a roupa ou socando o arroz, paravam assustadas erguendo os olhos para o lado da palhoça do vaqueiro velho. Mas ninguém o acomodava antes de ser laçado o boi fujão e quando o vaqueiro aparecia, arrastando o animal laçado, Firmo suspirava baixinho:
– Ah! Nossa Senhora! meu tempo! (...)
ESTÉTICA
Esquecido pelas gerações formadas à luz do Modernismo, Coelho Neto já pode ser avaliado objetivamente: nem tão genial quanto permitia crer sua imperturbável fecundidade, nem tão despiciendo quanto faziam supor as demasias de seu estilo. Aqui, sem dúvida, a pedra de toque do problema, pois sua opulência verbal, que durante anos lhe sustentou o prestígio, acabou sendo relegada ao plano das superfetações genuinamente tropicais. Todavia, na afoita generalização com que se lhe rubricou a obra, muita injustiça se cometeu, porquanto não distinguia o produto de superior qualidade dos outros forjados na luta do ganha-pão diário. À primeira categoria pertence o volume Sertão, de que foi selecionado “Firmo, o Vaqueiro”. Neste conto, percebe-se que a linguagem de Coelho Neto se caracteriza por certo portuguesismo ou casticismo, ainda que se trate de uma narrativa regionalista, e que o narrador emprega um vocábulo parcimonioso, adequado ao tema, que colabora eficazmente para a concisão e harmonia do conjunto. Nem tudo, portanto, era exagero em Coelho Neto , inclusive seu realismo, que nada possui de ortodoxo ou de escola: nascido de uma inclinação medular (dir-se-ia atávica, herança da mãe indígena) para o visualismo, à semelhança de um pintor voltado para as questões sociais, não raro se mescla de um idealismo ou duma tendência para o desgarramento da fantasia, que atenua ainda mais o verismo das cenas. Daí que o ficcionista construa uma fábula regionalista a meio caminho entre o Realismo e o Simbolismo, graças à ambigüidade com que divisa a cor local. Crônica de uma existência monocolor a ocultar uma rica sabedoria das coisas, o conto atesta as qualidades literárias de seu criador e ocupa lugar de honra na evolução da Literatura Brasileira como uma das obras-primas no gênero. [1]
DOMINGOS OLÍMPIO
Domingos Olímpio Braga Cavalcanti nasceu no dia 18 de Setembro de 1850, em Sobral, estado do Ceará. Formado em Direito pela Faculdade de Recife em 1873, retorna a seu Estado natal e de lá se transfere para o Pará em 1879, onde se dedica à advocacia e ao jornalismo. Em 1891, muda-se para o Rio de Janeiro, se entregando às mesmas ocupações. No ano seguinte, vai a Washington, EUA, como secretário da missão diplomática encarregada de resolver o litígio de fronteiras com a Argentina. Entre 1904 e 1906, funda e dirige a revista ‘Os Anais’. Faleceu no Rio de Janeiro em 6 de Outubro de 1906. Tudo o mais que escreveu, permanece inédito ou disperso.
Bibliografia:
- 1903: Luzia-Homem, sua obra capital.
- 1906: O Almirante
- 1906: Uirapuru.
Luzia-Homem
A ação de Luzia-Homem transcorre no Ceará, em 1878. A protagonista que confere título à obra reúne qualidades físicas de homem e a beleza plástica de mulher. Integrada num grupo de retirante, logo sua figura soberba chama a atenção de homens diametralmente opostos: Crapiúna, soldado de maus bofes, e Alexandre, honesto e trabalhador. Crapiúna, a fim de conseguir as boas graças de Luzia, arma uma calúnia contra Alexandre, e este é preso sob acusação de roubo. Graças à interferência de Teresinha, pobre desgraçada, mas ainda animada por uns restos de virtude, tudo se esclarece e Crapiúna acaba sendo levado para a cadeia em lugar de outro. Assim, Luzia e Alexandre podiam realizar seu sonho: ir para a praia com a mãe dela, velha entrevada, casar-se. Em caminho, Luzia, enveredando por um atalho, topa com Crapiúna, que fugira da prisão para vingar-se de Teresinha. Lutam, e o soldado apunhala a moça, em seguida despenca no precipício. Os trechos que se vão ler, pertencem aos capítulos II e III:
O francês Paul - misantropo devoto e excelente fabricante de sinetes que, na despreocupada viagem de aventura pelo mundo, encalhara em Sobral, costumava vaguear pelos ranchos de retirantes, colhendo, com apurada e firme observação, documentos da vida do povo, nos seus aspectos mais exóticos, ou rabiscando notas curiosas, ilustradas com esboços de tipos originais, cenas e paisagens - trabalho paciente e douto, perdido no seu espólio de alfarrábios, de coleções de botânica e geologia, quando morreu, inanido pelos jejuns, como um santo.
Um dia, visitando as obras da cadeia, escreveu ele, com assombro, no seu caderno de notas:
"Passou por mim uma mulher extraordinária, carregando uma parede na cabeça."
Era Luzia, conduzindo para a obra, arrumados sobre uma tábua, cinqüenta tijolos.
Viram-na outros levar, firme, sobre a cabeça, uma enorme jarra d'água, que valia três potes, de peso calculado para a força normal de um homem robusto. De outra feita, removera, e assentara no lugar próprio, a soleira de granito da porta principal da prisão, causando pasmo aos mais valentes operários, que haviam tentado, em vão, a façanha e, com eles, Raulino Uchoa, sertanejo hercúleo e afamado, prodigioso de destreza, que chibanteava em pitorescas narrativas.
Em plena florescência de mocidade e saúde, a extraordinária mulher, que tanto impressionara o francês Paul, encobria os músculos de aço sob as formas esbeltas e graciosas das morenas moças do sertão. Trazia a cabeça sempre velada por um manto de algodãozinho, cujas curelas prendia aos alvos dentes, como se, por um requinte de casquilhice, cuidasse com meticuloso interesse de preservar o rosto dos raios do sol e da poeira corrosiva, a evolar em nuvens espessas do solo adusto, donde ao tênue borrifo de chuvas fecundantes, surgiam, por encanto, alfombras de relva virente e flores odorosas. Pouco expansiva, sempre em tímido recato, vivia só, afastada dos grupos de consortes de infortúnio, e quase não conversava com as companheiras de trabalho, cumprindo, com inalterável calma, a sua tarefa diária, que excedia à vulgar, para fazer jus a dobrada ração.
— É de uma soberbia desmarcada - diziam as moças da mesma idade, na grande maioria desenvoltas ou deprimidas e infamadas pela miséria.
— A modos que despreza de falar com a gente, como se fosse uma senhora dona - murmuravam os rapazes remordidos pelo despeito da invencível recusa, impassível às suas insinuações galantes.
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A população da cidade triplicava com a extraordinária afluência de retirantes. Casas de taipa, palhoças, latadas, ranchos e abarracamentos do subúrbio, estavam repletos a transbordarem. Mesmo sob os tamarineiros das praças se aboletavam famílias no extremo passo da miséria - resíduos da torrente humana que dia e noite atravessava a Rua da Vitória, onde entroncavam os caminhos e a estrada real, traçado ao lado esquerdo do Rio Acaracu, até ao mar. Eram pedaços da multidão, varrida dos lares pelo flagelo, encalhando no lento percurso da tétrica viagem através do sertão tostado, como terra de maldição ferida pela ira de Deus; esquálidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos automáticos dentro de fantásticos trajes, rendilhados de trapos sórdidos, de uma sujidade nauseante, empapados de sangue purulento das úlceras, que lhes carcomiam a pele, até descobrirem os ossos, nas articulações deformadas. E o céu límpido, sereno, de um azul doce de líquida safira, sem uma nuvem mensageira de esperança, vasculhado pela viração aquecida, ou intermitentes redemoinhos a sublevarem bulcões de pó amarelo, envolvendo como um nimbo, a trágica procissão do êxodo.
Luzia viera na enxurrada, marchando, lentamente, a curtas jornadas, e fora forçada a esbarrar na cidade, por já não poder conduzir a mãe doente. Do capitão Francisco Marçal, o homem mais popular da terra, tão procurado padrinho, que contratara com o vigário pagar-lhe uma quantia certa, todos os anos, por espórtulas dos batizados, obtivera, por felicidade, uma casinha velha e desaprumada, onde se aboletou com relativo conforto. A vida lhe correu bem durante seis meses. Havia trabalho e ela ganhava o suficiente para se prover quase com fartura, Mas o coração pressentia, então, com vago terror, o perigo das pretensões de Crapiúna e ela procurava, por todos os meios, evitá-lo. Seu primeiro impulso, depois que lhe ele ousara falar em termos desabridos, foi anoitecer e não amanhecer; emigrar, confundir-se nas levas de famintos em busca das praias ubertosas, com os lagos povoados de curimãs, em cardumes assombrosos, os tabuleiros irrigados por orvalho abundante, cheios de plantações, e confinando, em contraste consolador, com a planície seca e estorricada.
Além se desdobrava o grande, o soberbo mar infindo e glauco, a rugir lamentoso, despejando, envolta em rendas de espuma, a generosa esmola de peixes, moluscos e crustáceos saborosos. Com a proteção de Maria Santíssima venceria a travessia. Vinte léguas galgam-se depressa. Talvez tombasse, como os míseros, cujas ossadas alvejantes, descarnadas pelos urubus e marcarás, iam marcando o caminho das vítimas da calamidade. (...)
ESTÉTICA
Luzia-Homem confina-se nos limites do Naturalismo, mas dum modo sui generis, a principiar da conformação física da heroína: “encobria os músculos de aço sob as formas esbeltas e graciosas das morenas moças do sertão”. Na antinomia da compleição, que lhe reflete a dualidade meiguice versus energia moral do temperamento, estampa-se a batalha travada entre o substrato romântico (representado pela beleza) e a doutrinação naturalista (concentrada na força). De qualquer modo, o retrato verossímil de uma retirante privilegiada atenua-se com a presença de laivos românticos por trás da formosura e robustez de caráter, uma vez que Luzia, sobrenadando no mar de miséria desencadeada pela seca, defende a honra a todo o custo, projeta um casamento pacato com Alexandre, e acaba pagando com a própria vida a compostura ética e as prendas físicas de que a dotara a natureza. O Romantismo subjacente ao perfil tipológico de Luzia ainda se observava no protagonista, antípoda de Crapiúna, vilão da estirpe de Manecão, de Inocência. Além das figuras centrais do drama, há que registrar uma com que personagem, a seca nordestina, patente no segundo trecho, começando por “A população da cidade triplicava”. Contrariamente a José de Alencar, cujos romances regionalistas se caracterizavam por uma expressa intenção apologética, o sertaneijismo de Luzia-Homem procura respeitar fielmente a realidade dos fatos, por mais cruentos que sejam. De onde o vigor e a fidelidade do painel social, que se mostram no romance todo e nos excertos selecionados, e que apenas não alcançam tensões mais elevadas em razão do estilo: a linguagem, menos apurada do que era comum na época, por certo colabora para a atmosfera de reportagem que domina a narrativa, mas rouba-lhe parte do fulgor e amortece o impacto que a visão das cenas dos retirantes poderia ocasionar. Não obstante, Luzia-Homem enfileira-se junto do melhor que nosso Realismo produziu, e cooperou para o clima de interesse afetivo pelo Nordeste que viria a fomentar o romance engajado de 1930, com Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e outros.
FRANKLIN TÁVORA
João Franklin da Silveira Távora (Ceará, 1842 - Rio de Janeiro, 1888). Ingressou na Faculdade de Direito do Recife em 1859, formando-se quatro anos depois. Além de ter exercido a advocacia, atuou como funcionário público, em diversos cargos. Foi diretor de instrução pública, deputado provincial, secretário de governo do Pará, e trabalhou da Secretaria do Império, no Rio de Janeiro. Foi nomeado patrono da cadeira 14 da Academia Brasileira de Letras, pelo ilustre Clóvis Beviláqua.
§ Bibliografia:
- 1961: Trindade maldita;
- 1862: Os índios do Jaguaribe;
- 1866: A casa de palha;
- 1869: Um casamento no arrabalde;
- 1862: Um mistério de família;
- 1870: Três lágrimas;
- 1871: Cartas de Semprônio a Cincinato;
- 1876: O Cabeleira.
O Cabeleira
O romance não se ocupa apenas de pura ficção, conta a vida de José Gomes, O Cabeleira, cujo pai, Joaquim Gomes, foi um temeroso bandido. Pai e filho, associados a outro delinqüente, Teodósio, roubam e matam sem dó nem piedade. As populações paupérrimas, com o pouco que tinham, eram forçadas a lhes dar alimento, dinheiro e sangue. O grupo decide assaltar a vila de Recife e a população, sabendo que os bandidos se aproximam, trata de fugir para o mato. Os que não têm para onde ir, oferecem aos criminosos hospedagem.
Cabeleira, nessa época, tinha vinte e dois anos. Seus comparsas vão armados de facas, bacamartes e pistolas em direção à vila de Recife. Mais experiente, Teodósio é o primeiro a entrar no lugarejo, marcando a ingazeira da ponte, como local de encontro. A vila era pouco desenvolvida, por isso os esparsos moradores trancam-se cedo em suas casas, temendo roubos e assassinatos tão comuns na região.
Pai e filho chegam ao bairro da Boa Vista ao anoitecer. Como não sabiam que os habitantes, por ordem do governador, deviam colocar luminárias em suas casas, festejando a abolição dos jesuítas, ficam alarmados, pensando que serão descobertos. Mas logo se encontram com Teodósio, que rema uma canoa. Era 1º de dezembro de 1773. O povo festejava, passeando pela ponte iluminada de Recife, quando um deles reconhece o Cabeleira e se põe a gritar. A multidão começa a se dispersar desordenadamente, gritando, atropelando-se.
Os dois malfeitores apanham suas facas, o Cabeleira grita que chegou e vem acompanhado do pai que, sem pestanejar, dá com o facão sobre a cabeça de um passante, espirrando sangue no rosto do matador. O filho não entende porque o pai fez aquilo, mas o degenerado e infeliz lhe diz que ali são mal-queridos e, portanto, é preciso fazer o trabalho bem feito. Incentivado, Cabeleira sai ferindo a torto e a direito.
Os soldados da infantaria chegam e o povo preso na ponte, não tendo para onde fugir, lança-se às águas e logo os malfeitores, também, encurralados, fazem o mesmo. Um dos soldados é atingido pela vara de um canoeiro e desce correnteza abaixo. Teodósio foi quem o assassinou, enquanto buscava os comparsas. Em breve, estão todos na canoa com as armas na mão. Joaquim e o filho se encontravam na ponte para dar cobertura a Teodósio, que estava assaltando um armazém. Com a confusão, o velho assaltante teve tempo de praticar o furto desejado e, ainda, salvar os dois amigos, lançados à escuridão do Rio Capibaribe.
A violência do Cabeleira é incentivada pelo pai desde tenra idade. Aos 16 anos o menino demonstra extrema crueldade. Nessa época, mata de forma violenta Chica, uma mameluca, companheira de Timóteo, dono de uma venda de artigos roubados.
Chica, enfurecida, porque o cavalo do rapaz estava comendo sua horta, dá uma forte pancada no animal que sai correndo desabaladamente. Não contente, a mulher passa a dirigir insultos ao bandido, e este de raiva lhe dá uma surra tão grande que ela acaba falecendo. Sua valentia fica sendo conhecida por todos, pois nesse mesmo dia, tinha feito um roubo, assassinado um comerciante e deixado, quase mortos, dois soldados.
Timóteo jamais brigou com o malfeitor, pois o temia. Seu estabelecimento passa a ponto de encontro e venda dos produtos de roubo do trio. Nessa taberna, na ponte dos Alagados, escondem-se os três, após a confusão na vila de Recife. Mas, logo são sobressaltados pelo semblante desfigurado de Teodósio, que descobre ter deixado o dinheiro roubado no camarote da canoa que tinha desaparecido. Notam que dois meninos retornam com ela. Gritam para eles, mas os garotos, amedrontados, abandonam o barco, carregado pela correnteza, e se põem a correr. Cabeleira, pensa no dinheiro e atira certeiramente nas costas de um deles, mata o segundo a tiros, enquanto, sorrateiramente, Teodósio oculta de seus comparsas o fruto do roubo.
Segundo a tradição, o Cabeleira tinha boa índole, herdada da mãe, a fraca Joana. Na infância, Joaquim ensina ao filho a matar os animaizinhos, entregando-lhe uma pequena faca para ser usada contra todos aqueles que o provocassem: fosse velho, moço, mulher ou criança. A mãe se esforça para colocar o menino no caminho do bem e amor ao próximo. O marido decide partir levando a criança. Cabeleira fica abatido com a notícia, mas despede-se da querida amiga de infância, Luisinha, prometendo-lhe, quando voltar, não fazer mal a mais ninguém.
Luisinha era uma órfã, criada pela viúva Florinda. A menina vai crescendo, ao mesmo tempo em que a fama do Cabeleira e do pai se fortalece. A cada novo terror, ela sente-se triste e angustiada, recordando a imagem do antigo amigo. Até que, ao fim de uma tarde, quando vai buscar água, se encontra com o Cabeleira, que mata Florinda, quando esta vem em defesa de Luisinha. O bandido, não reconhecendo a moça, pretende levá-la consigo. Ela se apresenta e ele a liberta, dizendo que logo retornará para uma conversa.
Liberato, um proprietário de terras, arrasadas pelos bandidos, reúne-se com outros moradores queixosos e propõe atacarem o bando do Cabeleira, mas os homens se negam. Liberato não desiste e acompanhado de seus dois filhos, Ricardo e Sebastião, mais o genro, Vicente, parte à caça dos malfeitores. Um de seus vizinhos conta o plano ao bando. Ao chegarem à clareira dos malfeitores, estes já os esperam e os liquidam.
Dias mais tarde, quando o velho índio, Matias, conhecedor das matas, vai em busca do grupo, encontra seus corpos. Retorna à casa do morto acompanhado pelo pai do Cabeleira que, a qualquer custo, deseja entrar onde se encontram as mulheres, esperando por seus familiares. Luísa, também, aí está, assistindo Florinda a expirar, após tê-la encontrado ainda com vida. Matias é morto avisando às mulheres sobre o ocorrido e sobre a presença dos bandidos.
As cinco mulheres entram em pânico, enquanto Joaquim esmurra a porta, gritando para que elas saíssem. Percebendo que vão atear fogo a casa, elas decidem ficar.
Morrem no incêndio, mas Luísa sai, carregando às costas a morta Florinda. Joaquim quer a moça para si, mas o filho enfrenta ferozmente o pai que decide perdoar seu desafio, enquanto o bando evita os policiais. Cabeleira abraça e beija ternamente Luisinha, fugindo com ela para a mata.
Timóteo, forçado pelos policiais, leva-os até o esconderijo do bando, deixando o Cabeleira e Luísa nas matas. As milícias volantes cercam a região da província de Alagoas até a Paraíba, prendendo todos os ladrões, malfeitores e aterrorizadores das populações há anos, inclusive Joaquim e Teodósio. Entretanto, o povo ainda se sente ameaçado, porque o Cabeleira está livre.
O bandido busca água e comida para a amada que o impede de matar as pessoas que cruzam seu caminho. O malfeitor deseja agradá-la , por isso joga fora o bacamarte e a faca como prova de que jamais fará mal a ninguém, reza e se arrepende de todo o mal causado. Uma manhã, ao despertar, encontra a companheira morta, vítima de queimaduras no peito, por tentar salvar Florinda, de febre e da longa caminhada.
Estupefato, o malfeitor descobre a ferida oculta com um lencinho, doido de dor, chora amargamente.
Cabeleira ouve uma corneta e percebendo que a milícia está em seu encalço, embrenha-se mata a dentro, largando o corpo de Luísa para trás. Marcolino, um dos moradores, leva os soldados para o mato, mas não consegue localizar o bandido.
Desapontado, resolve agir por conta própria; decidido a caçar o delinqüente a qualquer custo. Vai na direção de Pau D' alho, quando avista o malfeitor penetrando no canavial. Este já sabe que está cercado e a saída controlada. O cerco dura quase três dias, quando, finalmente, se entrega ao chefe, o capitão-mor Cristóvão de Holanda Cavalcanti, que lhe dando voz de prisão, leva-o para sua casa, antes de encaminhá-lo à prisão mais segura, em Recife.
A esposa do capitão-mor fica comovida com a dor e a música que saem da viola do Cabeleira e implora ao marido para deixar escapar a vítima da violência paterna. Mas Cristóvão de Holanda cumpre seu dever. Decorrido um mês, O Largo das Cinco Pontas, em Recife, ostenta a forca que fará justiça. Joana, a mãe do Cabeleira, implora para vê-lo, mas não lhe permitem. Vai para a praça aguardar o filho e chorar sua dor. Ele aparece pálido e diz arrepender-se do que fez, despede-se, dando adeus à mãe, que morre do coração entre as mulheres da praça.
A morte dos bandidos não inibe a manifestação de outros malfeitores. O narrador pergunta: 'De que serviu pois a provisão régia?'. E, acrescenta: ' a pena de morte, que as idades e as luzes têm demonstrado não ser mais que um crime jurídico, de feito não corrige, nem moraliza'. Atribui aos crimes cometidos por Cabeleira à pobreza e ignorância, reclamando da sociedade o dever de dar a educação a todos e de organizar o trabalho. Aproveita, também, para defender os escravos que, levados pelos açoites e condição servil, matam seu senhor por serem vítimas da pobreza e degradação social.
ESTÉTICA
Na segunda metade do século XIX, Franklin Távora sabe aproveitar-se da crise do Romantismo, inaugurando, na literatura e no pensamento brasileiros, novos caminhos em direção ao Realismo e ao Naturalismo. Cumprindo esse movimento, ele encontra as contradições de quem vive uma época de transição. Por um lado, privilegiando uma observação direta da realidade, ele abdica do privilégio da sonhadora imaginação romântica para o processo criador. Nesse sentido, ele incorpora a técnica cientificista como propiciadora de novas conquistas para a manifestação das percepções do mundo e sonhará com uma sociedade industrializada que venha transformar a natureza tão celebrada pelos românticos em uma onda progressista de novas tecnologias. Por outro lado, ele será o primeiro a dar voz teórica e prática a um regionalismo que vê no Norte do país, supostamente mais puro do que o Sul e o Sudeste, a possibilidade de alcançar uma literatura eminentemente nacional. Com essa vidência, ele inaugura, precocemente, um movimento que, com Gilberto Freyre e muitos autores da geração de 30, terá toda a sua força. [1]
INGLÊS DE SOUSA
§ Obra ficcional:
- 1876: O Cacaoalista; História de um pescador
- 1877: O Coronel Sagrado
- 1891: O Missionário
- 1892: Contos Amazônicos
§ Literatura jurídica:
- 1873: Artigos e ensaios de crítica literária e filosófica
- 1881: Reforma e Regulamento da Instrução Publica
- 1898: Títulos ao portador no direito brasileiro
- 1912: Projeto de Código Comercial
O Missionário
Tomando o hábito, o Padre Antonio de Morais vai para Silves, povoado paraense à entrada da selva amazônica. Embora carente de vocação, conquista prestígio de sacerdote coreto e pio; todavia, a rotina da vilazinha, começando a enfastiá-lo, sugere-lhe a procura de um objeto mais valioso para aplicar o talento. E resolve embrenhar-se na mata inóspita, a fim de catequizar os temíveis mundurucus. Parte em companhia do sacristão, mas este regressa a Silves antes de chegar. E é doente que arriba ao sítio de João Pimenta, onde os desvelos de Clarinha, neta do agricultor, e o prolongado repouso lhe restituem a saúde e lhe acordam o erotismo que a batina dissimulara até então. Por fim, conduzindo a matuta, retorna a Silves, e é recebido como a um autêntico santo. Do romance destacaram-lhe as seguintes páginas:
A canoa deslizava brandamente, entrando a boca do rio Canumã, cuja superfície calma enrugava de leve, despertando as sardinhas a meio adormecidas entre duas águas. Nenhum pássaro cantava, as vozes noturnas da floresta haviam-se calado, num recolhimento solene, ao despontar da aurora, como se ensaiassem as forças para a abertura do grande hino da manhã selvagem. Reinava profundo silêncio, apenas entrecortado pelo ruído cadenciado do remo batendo alternadamente na água e nas falcas da montaria. (...)
(...) As ribanceiras negras, irregulares, ora alteando-se como montanha, ora arredondando-se em lombadas, aqui estendendo se em praia alagadiça, salpicada de aningas magras, ali correndo a largos trechos um muro baixo, feito de tabatinga de veios cor-de-rosa; em alguns lugares retendo a custo os cedros que se esforçavam por despenhar-se no rio," ansiosos por vagabundear nos braços da correnteza; em outros esmagadas pelas possantes maçarandubas que lhes entranhavam no seio as raízes grossas como galhos de pau-pereira; tinham o aspecto triste e desconsolado das paragens ermas, das vastas solidões jamais pisadas pelo homem civilizado, e onde a pujança da natureza bruta parece opor uma resistência de bronze ao mesquinho que se aventura a perscrutar-lhe os segredos.(...)
(...) O sol aumentara. O sol tinha cintilações de cobre polido que ofuscavam a vista e causavam vagas dores nevrálgicas nas arcadas superciliares, aquecendo a cabeça. As árvores estavam paradas, ressequidas, estalando ao contato da mais leve aragem ou de algum passarinho que voejava em busca de sombra e de frescura na folhagem verde-claro com ligeiros tons violáceos. O chão duro, seco, crestado pelo calor, ressoava ao passo tardonho e preguiçoso das capivaras que vinham beber ao rio. Um enxame de mutucas verdes esvoaçavam no ar, com um zumbido sonoro, e o sol dava-lhes um brilho de esmeralda e ouro às asas rutilantes. (...)
(...) Era o mundo selvático em que o Padre Antônio, o sacerdote admirado em Silves até mesmo por aqueles que combatiam o clero, procurava os mundurucus, índios ferozes, para catequizá-los. Mas antes que fosse arriscar sua vida às garras daqueles selvagens, caiu nos braços de uma fascinante tapuia, tomando outro rumo daquele que seu espírito heróico sonhava. (...) [1]
ESTÉTICA
Embora tão ortodoxo quanto O Cortiço em matéria de afeiçoamento ao ideário naturalista, O Missionário utiliza-se numa área geográfica e numa problemática novas: a selva amazônica e a questão do celibato clerical. Tais circunstâncias, que tornam O Missionário um típico romance de tese, são visíveis nos trechos dados à leitura: salta aos olhos a descrição minuciosa da vegetação equatorial, primitiva, hostil e sufocante, em meio à qual o homem se volve pigmeu, impotente para resistir ao chamado dos instintos, como que reconduzido, naquele canário tão velho como o despontar do mundo, à condição de ser pré-histórico. Ao submeter o Padre Antônio de Morais ao império dos fatores de Taine (herança, meio e momento), o ficcionista acabou por torná-lo títere, aliás como soia acontecer no perímetro naturalista: assumindo o ponto de vista do narrador onisciente, Inglês de Sousa converte a vida mental do protagonista numa superfície tão plana e óbvia quanto a floresta em que penetra com intuitos evangelizadores. Em contrapartida, Clarinha parece menos à mercê do escritor, decerto porque concentrado na situação do clérigo: heroína matuta, reverso de Inocência e de todas as personagens românticas no gênero, ao Elegê-la para contracenar com o presbítero, o prosador teria em mente denunciar a falsidade que sustentava a idealização romântica das figuras femininas; divisando-lhes os verdadeiros atributos físicos e morais, o romancista encontraria as proporções julgadas exatas de uma faixa da realidade social brasileira, mas tombava no extremo oposto, obnubilando aspectos igualmente relevantes. De qualquer modo, a cabocla ostenta uma “verdade” que falta à estereotipia do sacerdote, assim mostrando o outro lado dO Missionário: apesar da rígida submissão ao código naturalista, gerando a visão microscópica da selva amazônica, encerra uma personagem como Clarinha e atinge equilíbrio entre os componentes narrativos, razões suficientes para salientar-se no panorama de nossa ficção oitocentista.
RAIMUNDO CORREIA
Raimundo da Mota de Azevedo Correia (litoral do Maranhão, 1860 – Paris, 1911). Formado em Direito na Universidade de São Paulo, 1882, foi magistrado no Rio de Janeiro, Minas Gerais e na Capital. Entre 1892 e 1899 foi também funcionário e professor de Direito em Ouro Preto , secretário de legação em Lisboa, vice-diretor e professor de um colégio em Petrópolis. Entrou para a carreira diplomática, e faleceu em pleno tratamento de saúde em Paris.
§ Bibliografia:
- 1879: Primeiros sonhos
- 1883: Sinfonias
- 1887: Versos e Versões, 1883/1886
- 1891: Aleluias, 1888/1890
- 1898: Poesias
- 1948: Poesias completas
- 1961: Poesia completa e prosa.
Anoitecer
Esbraseia a Ocidente na Agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...
Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...
Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.[1]
ESTÉTICA
Irmão gêmeo de Antero de Quental e Cruz e Sousa, Raimundo Correia é dos raros poetas da Literatura Brasileira que sofreram obstinadamente da ânsia de infinito, da angústia de transcender, que enforma os santos e os visionários. Quando muito, o impacto das novas correntes de pensamento acelerou o processo de transformação latente, rumo das profundezas e alturas em que, afinal, se colocou a mente do poeta. Daí a relatividade do seu Parnasianismo, mais de ordem externa que doutrinária: o apuro da forma, em vez de cobrir o transcurso das emoções, serve perfeitamente ao propósito. Na verdade, o comando das soluções estilísticas em momento algum chega à obsessão que se nota em Alberto de Oliveira, dando mesmo a impressão de um à-vontade incoerente com o decálogo parnasiano: registre-se a prodigalidade de reticências nos vários poemas transcritos, frinchas que, com romper a uniformidade dos versos, permitem extravasar a intimidade do poeta. Desse modo, o próprio descritivismo se atenua, e em lugar de notações precisas e impessoais, insinua-se um clima de sugestões vagas e subjetivas. Tais acentos, presentes em todos os poemas, atingem o zênite em “Plenilúnio”, onde o sortilégio do luar ganha uma rarefação de matiz autenticamente simbolista, incluindo a loucura que consagra os sonhadores e idealistas. Basta essa composição para conferir a Raimundo correia posto de honra nos quadros da Literatura Brasileira: talvez fosse o menos esteta de nosso parnasianos, mas é inegável que carregava como nenhum deles a inquietação filosófica que gera a poesia superior, capaz de resistir ao tempo e às modas.
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